sábado, 1 de outubro de 2011

Contra racismo, machismo e homofobia, a cultura

Na última década, foi difundida a idéia de que o feminismo havia morrido. Que as pautas haviam sido atendidas, que a lei se tornara igual para todos, que as mulheres tiveram plena inserção no mercado de trabalho, que a liberdade sexual já foi conquistada, que homens e mulheres podiam escolher livremente seu futuro e que não havia mais nada para lutar, com exceção de pequenos aprimoramentos na lei. E, mais ainda, que o feminismo havia se tornado um discurso saudosista, reacionário e moralista, que não compreendia as necessidades da mulher moderna. Mas essa idéia estava mais para mistificação e discurso de desmobilização do que para uma descrição da realidade.

Vemos hoje uma renovação do movimento feminista e de outros movimentos sociais expressivos no último século que foram retratados como mortos e defasados pelo discurso de 'Fim da História'. E não se trata de saudosismo, mas sim de reconhecer que essas causas ainda são absolutamente necessárias.

Assim como o feminismo, o movimento negro e o movimento LGBT estão reivindicando esse espaço 'vazio' da história. Mas tem mais que os une. Alguns acreditam que o que os une é o histórico de luta por direitos civis. Um passado comum. Outros acreditam ser o combate a como o racismo, o machismo e a homofobia se expressam no capitalismo, e que teriam como projeto político comum o combate ao capitalismo. Mas esses movimentos não estão apegados a um passado, nem a uma hipótese. Seu objetivo não é simplesmente afirmar uma identidade política, nem servir de instrumental para outros tipos de causas. O que sensibiliza essas pessoas não é nem o distante passado e nem o distante construto do capitalismo, mas uma experiência bem presente e concreta: a experiência da violência.



O que une todos esses movimentos é que eles denunciam as violências sobre o corpo. E é por isso que são tão necessários: o ideal da democracia liberal, da igualdade perante a lei, não condiz com a realidade. Os preconceitos, opressões e violências continuam existindo na cultura e sendo negligenciados ou legitimados institucionalmente. É essa a grande contradição: enquanto que os direitos liberais foram conquistados - direito ao voto, inserção no mercado de trabalho, igualdade perante a lei -, os direitos fundamentais estão sendo violados.

E essa violência é institucional. É política. É simbólica. É direta. E está profundamente arraigada no coração de muita gente. Então a campanha que esses movimentos fazem é para acabar com a violência nesses corpos e corações.

E é isso o que as Grandes Marchas estão fazendo. Nesta nova política, as reivindicações não são tanto direcionadas ao Estado, mas sim à sociedade mais ampla. Em vez de mudar leis, devemos mudar corações. Devemos mudar culturas. E garantir, com todas as nossas forças, o direito mais básico: o de existir.

E esse tem sido o papel das marchas. Transformação cultural. As marchas e cantos têm mostrado um grande valor em termos de produção cultural - e demarcado a posição dos novos movimentos sociais e dispensar a disputa dentro do Estado. Mais do que buscar implementar a criminalização da homofobia, as campanhas contra a homofobia estão instituindo uma nova cultura, uma nova moral, que não naturaliza a violência - direta, institucional ou simbólica - contra a população LGBT. Ao se falar 'a nossa luta é todo dia contra racismo, machismo e homofobia', se busca não meramente o confronto com quem manifestar uma atitude preconceituosa, mas sim produzir uma transformação de consciência em todos os que ouvem. Nos últimos dois anos, foi possível perceber grandes mudanças na população em geral nos discursos sobre sexualidade e gênero - fazer uma piada machista ou homofóbica deixou de ser normal para ser algo repreensível, assim como é há algumas décadas uma piada racista. O povo não aceita mais a discriminação opressora.

O Estado não se mostra capaz de garantir os direitos humanos mais fundamentais. E os movimentos sociais reconheceram que devem transformar o mundo pelas próprias mãos, sem esperar a ação do Estado. Em vez de documentos, queremos cultura. Marchas da Liberdade, cartazes, mutirões de plantação de mudas, beijaços contra a homofobia, ocupações, greves - nesses tempos de necessidade de transformação de cultura e de desconstrução de uma moral opressora, é necessário todo o povo para mudar o povo.

Não queremos produzir governos, queremos produzir subjetividades. E, para isso, esses movimentos precisam do Flower Power.

Nenhum comentário:

Postar um comentário