terça-feira, 22 de maio de 2012

Por que discursos de ódio merecem resposta?

Discursos de ódio merecem resposta porque são ofensas. São ataques. O discurso de ódio se constitui numa violência cultural, que é a produção discursiva das justificativas para o exercício de violências diretas e estruturais sobre determinados grupos, enquadrados como não-merecedores de respeito e proteção. O discurso de ódio é uma ameaça, proferida publicamente em alto e bom som.

E o discurso de ódio tenta ser justificado sob a proteção legal do direito à liberdade de expressão. Ironicamente, o discurso de ódio, que nega direitos básicos às pessoas atacadas, inclusive o direito à integridade física, tenta se justificar dentro de uma lógica dos direitos. Entretanto, a questão do discurso de ódio não é jurídica, mas ética. Juridicamente, o direito à liberdade de expressão significa o direito à não-intervenção estatal na forma como as pessoas se comunicam. Significa que o que se sente e se fala não tem que passar pelo crivo do Estado. Significa que a comunicação é um assunto das relações interpessoais, e não de Estado. E que nenhum discurso vai ser endossado e defendido juridicamente pelo Estado.

Isso significa que nenhum discurso é imune a críticas ou a respostas. Isso deveria ser um truísmo, visto que vivemos em relação, e as pessoas interagem umas com as outras no processo comunicativo. Entretanto, como o discurso de ódio faz parte de um projeto autoritário, ele também se vale do aparelho jurídico estatal para se colocar numa posição privilegiada, de atacar sem ser atacado. E o primeiro passo para responder ao discurso de ódio é desconstruir essa pretensa proteção jurídica. Até porque o discurso de ódio dificilmente se enfrenta juridicamente, em função da própria natureza autoritária, criminalizante e militarista do Estado. Não é à toa que a abordagem criminalizadora dos discursos de ódio não tem apresentado bons resultados.



A resposta aos discursos de ódio não deve ser jurídica, mas ética. Dialógica. Discurso de ódio é ofender e ameaçar muitas pessoas em praça pública. Quando invocam o direito à liberdade de expressão, eles querem que as pessoas escutem as ofensas e ameaças e se calem. Entretanto, o Estado não pode obrigar ninguém a se calar. E o que as pessoas fazem é responder. Curiosamente, isso é algo que se aprende desde pequeno: se ofender alguém, vão retrucar. Não se trata de censura, pois a censura é um recurso do Estado: se trata de resposta. O discurso de ódio precisa ser destituído do palanque e desconstruído. E para isso é necessário diálogo.

Mas como dialogar com um discurso de ódio? É um terreno delicado. O discurso de ódio tende a enquadrar o outro como inimigo, a produzir dicotomias e a propor a violência como solução, e não devemos responder nesses termos. Não se trata de ameaçar e odiar o autor do discurso de ódio, mas de contestá-lo. De mostrar por que que esse discurso é inaceitável e por que está errado. O discurso de ódio parte de uma ignorância e uma negação do outro, e revelar quem é esse outro, a voz desse outro, é a resposta a esse problema. O discurso de ódio busca fazer rupturas, separar pessoas - separar a tal ponto que o grupo odiado seja objetificado e não tenha proteção -, e a resposta a isso é a aproximação, o encontro e o diálogo.

Devemos rejeitar a abordagem juridica estatal aos discursos de ódio. Discursos de ódio merecem resposta e devem ser contestados, pois o processo comunicativo é sempre em relação. Entretanto, devemos tomar cautela para, ao confrontar um discurso de ódio, não cair na mesma lógica. Como disse Nietzsche:

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

Um comentário:

  1. Ótimo texto. Uma coisa que ele me fez pensar é que o discurso de ódio dificilmente é fruto de reflexão longa e cuidadosa: pega-se um preconceito, passa-lhe um verniz de erudição, cientificidade ou moral e se o apresenta não como uma opinião, mas sim "como as coisas são". Frequentemente, penso ser quase impossível fazer esse diálogo de que tu falas, Bruno, por que paredes costumam ser mais receptivas. Entretanto, é essencial que se faça um esforço por maior comunicação com aqueles que declamam discursos de ódio por que é justamente na troca que acontece a reflexão necessária para mudar velhos preconceitos.

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