segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Pela Desmilitarização do Anarquismo
"Somos a favor da abolição da guerra, não queremos a guerra. Mas a guerra só pode ser abolida com a guerra. Para que não existam mais fuzis, é preciso empunhar o fuzil." Mao Tsé-Tung
O que leva pessoas identificadas como anarquistas a terem Mao Tse-Tung como referência ética? Ou a proferir frases como "a organização armada deve servir como braço armado da classe"? A acreditar que ação direta significa guerra civil? A dizer que devemos aceitar os derramamentos de sangue? A rotular a todos que não aderem ao seu programa ideológico como inimigos da classe? Dentre os vícios autoritários que devemos nos livrar, merece atenção especial o militarismo.
Os militarismos estão presentes naqueles que criam mecanismos para identificar e punir 'traidores', exigem disciplina e comprometimento fiel, fazem ameaças, botam para correr quem não se encaixa no seu grupo, usam do rótulo stalinista de 'pequeno-burguês' a quem não siga sua tendência dogmática, exigem cicatrizes e medalhas de batalha como atestado de militância, cobram macheza dos militantes, instituem uma mentalidade paranóica de 'nós x eles' e acreditam que revolução é sinônimo de guerra. São terroristas da teoria, defensores da pureza do discurso político, funcionários da verdade e ascetas disciplinares. Pregam o ódio e a ausência de compaixão. Usam de rótulos para silenciar, que em muito se parecem com os rótulos homofóbicos típicos de sistemas militares. Odeiam dissidentes. Sustentam que revolucionários são os musculosos e machões integrantes do "braço armado" - e não conseguem fazer a crítica de que a instituição de um "braço armado" já é produtora de uma divisão de classes. E esquecem de fazer uma análise crítica da indústria bélica no mundo, acabando por acreditar que se armar é meramente 'um recurso tático para derrubar o Estado e a democracia burguesa', sem entender como o comércio de armas se insere dentro de um projeto de poder da indústria bélica e de determinados Estados nacionais.
É importante ter clareza que militarismo não é sinônimo de pegar em armas. Militarismo é uma lógica. A lógica militarista consiste em tratar outras questões, sejam elas ético-estéticas, políticas, culturais ou existenciais, como questões militares. O militarismo é um modo de subjetivação e de fazer política, que consiste em retratar a tudo como guerra.
O militarismo é um desses fascismos interiores dos quais devemos nos livrar. Um vício de stalinistas e maoístas que acham que o ódio à democracia burguesa é o que nos une. O que nos une é a heterotopia. É a prática libertária, autogestionária, anticapitalista, anticolonialista, queer, vegan, amor-livre, pirata, agroecológica, antimanicomial, abolicionista penal, popular, anti-discriminatória e solidária. Nós não queremos viver e morrer sob uma bandeira, mesmo que seja vermelha e preta. Nos solidarizamos com os povos forçados à resistência. Vemos ação direta na resistência indigenista zapatista, no monkeywrenching, na Earth Liberation Front, na ocupação de latifúndios, na ocupação de prédios, nas comunidades intencionais, na autogestão dos trabalhadores, na Educação Popular, no compartilhamento da informação, nas ações estéticas pós-gênero dos black bloc e no desmantelamento das megaconstruções - ações diretas que operam em lógicas não-militarizadas. O anarquismo é prefigurativo - os meios devem refletir os fins. É a capacidade de concretizar a utopia no presente que torna o anarquismo tão radical. Por isso, devemos rejeitar os militarismos entre nós assim como rejeitamos qualquer outro autoritarismo. Queremos a sociedade toda desmilitarizada.
"Como fazer para não se tornar fascista mesmo quando (sobretudo quando) se acredita ser um militante revolucionário? Como liberar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres do fascismo? Como expulsar o fascismo que está incrustado em nosso comportamento? "
Michel Foucault
"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você" Friedrich Nietzsche
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