domingo, 2 de setembro de 2012

Pela selvagerização dos espaços urbanos


O higienismo é a tática de guerra dos projetos autoritários de cidade. A cidade limpa, reta, asséptica, branca e cinza, ordeira, VIP e acolhedora para os carros de luxo e os saltos altos é a utopia higienista. Nesta cidade, não há lugar para os pobres, para o mato, para o trânsito livre, para qualquer agitação ou cor, com exceção daquelas perfeitamente planejadas e que servem como propaganda. É uma cidade da imagem, não dos corpos. O importante é que pareça - o prazer está na propaganda.

A cidade fica cada vez mais chata. Não tem espaços para a diversão, não tem espaços para parar, olhar e aproveitar. A lógica higienista é tão pervasiva que deixa a cidade completamente plana. Até mesmo práticas de resistência e ocupação do espaço urbano, como skate ou parkour, ficam no vazio pela ausência de quebradas, obstáculos, muretas, degraus, corrimões e árvores. A nova organização das cidades passa do acúmulo dos objetos para o esvaziamento do espaço. A política agora é não mais remover incessantemente as pichações nos muros, mas trocar os muros por grades e cercas elétricas, impossíveis de serem pichados. Trocar o chão liso pelos mosaicos. Esvaziar completamente qualquer possibilidade de ocupação. Tornar a cidade igual a um shopping - cheia de vidros, regras, propriedades privadas e relações puramente comerciais.

O higienismo se mostra ‘revitalizador’. Ele não quer espaços públicos abandonados - pois eles dão margem a ocupações -, mas sim espaços privatizados e arrumados. O higienismo não precisa mais do discurso da intolerância, do ódio ao diferente e dos moralismos. Tudo o que precisa é tornar os espaços particulares. Assim, esvazia de política.

A lógica higienista impõe uma dicotomia muito estratégica: limpo x sujo. Existe um determinado projeto de cidade que deve se expandir - que é o limpo (aquele limpo de shoppings e Alphavilles) - e existe a desordem, o caos, o sujo, o irregular - que deve ser removido. Essa dicotomia esvazia a resistência. Como defender a sujeira, a desorganização, a escuridão, os sacos de lixo a céu aberto? Alguma tentativa de resistência pode até jogar barro ou frutas podres nesses estabelecimentos de luxo - mas logo em seguida ela será limpa e protegida por cercas, guardas e câmeras. A assepsia faz parte do dever-ser da cidade.

É preciso romper com esse projeto de cidade. Estabelecer uma lógica de cidade na qual não existem essas categorias de limpo ou sujo. É preciso tornar os espaços selvagens. Na selva fazemos o que queremos. O desejo é livre, em vez de privatizado e judicializado. Nos espaços selvagens, não se faz distinção entre ricos e pobres, limpos ou sujos, ordeiros e vândalos. É permitido subir em árvores, transitar por tudo, andar cheio de lama, suar, mijar a céu aberto, gritar a plenos pulmões, arremessar pedras, ignorar horários, pular cercas e fazer qualquer coisa sem medo de parecer ridículo. Em ambientes selvagens existem outras possibilidades além do dinheiro - a natureza é abundante em possibilidades. Se somos indigentes expulsos da rua na cidade asséptica, somos ricos nos ambientes selvagens. Devemos reconhecer que a urbe é um roubo, e queremos retomar o que é nosso: a vida selvagem.

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