quarta-feira, 27 de junho de 2012

Urbanismo de Guerra

A cidade tem se configurado, historicamente, como um espaço hostil. Como palco das inevitáveis violências – diretas, estruturais e culturais – as quais pessoas aglomeradas estão submetidas. Violências naturalizadas. E ignoradas.

Mas a violência não é inerente à ideia de cidade. A violência é produto de determinados projetos de cidade.

A cidade não é neutra. Ela é construída para determinados propósitos, seguindo determinados métodos e conforme determinadas concepções. E, para perceber como o design da cidade é relacionado com um projeto político para essa cidade, é necessária uma atenta observação.

A função da cidade não é meramente habitacional. Nem rodoviária. É uma função política, de como se distribui o poder em uma sociedade e como se deve se comportar.

Existem projetos de urbanismo bastante hostis em curso. Vemos árvores sendo cortadas das ruas, árvores frutíferas sendo arrancadas para impossibilitar a livre colheita, canteiros sendo gradeados. Vemos iniciativas violentas de limpeza urbana, de expulsão de moradores de rua e comunidades de periferia. Vemos o Estado destituindo terras e derrubando casas. Vemos uma alta especulação imobiliária e grandes desigualdades habitacionais. Vemos o mercado acima do direito à moradia. E a polícia atendendo a outros interesses que não da segurança pública.


Isso tudo faz parte de um determinado projeto de cidade. Uma determinada concepção de como a cidade deve funcionar. E é uma concepção com efeitos muito violentos.

Existe um projeto cruel de cidade em curso. Um projeto liderado pelas grandes empreiteiras, pela bancada do concreto, que descobriu um ramo sempre em expansão.

O setor de construções está se tornando a nova indústria do petróleo. O setor de construções tem sido responsável pelo financiamento de guerras e expulsões urbanas e tem lucrado com a posterior reconstrução. No seu interesse expansionista, tem desalojado comunidades pobres a fim de, depois, vender ao Estado a imposição da construção a tijolo e cimento. E tem desenvolvido uma relação tão simbiótica com os aparatos repressivos militares que é possível descrever esse fenômeno como um Complexo Militar-Construtor.

É um projeto de grandes prédios. Grandes cercas. Grandes luzes. Grandes mercados. Não é para ser um espaço de povo. Nem um espaço de inclusão. É um projeto de conquista de território, de expulsão de moradores e de dominação econômica e ideológica. É um projeto de globalização, de colonização cultural e material. E, diferentemente do setor armamentista ou petrolífero, mais facilmente ligados à estética da violência, esse Complexo Militar-Construtor é, ironicamente e hipocritamente, visto com bons olhos – como um símbolo de construção. A propaganda da construção de um mundo melhor. Pela força.

É necessário reinventar a cidade. Desencrustar os fascismos e militarismos de seus espaços. Tornar a cidade habitável - humanamente, afetivamente e culturalmente habitável. Queremos trocar a cidade cinza, asséptica e gradeada por uma cidade colorida, selvagem e habitável. Porque a cidade não deve ser para a violência, mas para as pessoas.

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