quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Por uma Política da Hospitalidade




O mundo está se encaminhando para uma perigosa crise habitacional. A superpopulação e a crise ambiental já colocam em cheque a questão da administração dos recursos naturais e do espaço, e pouco se oferecem soluções além de políticas de planejamento familiar e de preservação e reciclagem dos recursos naturais, que não dão conta de parar a crise que está para explodir. A crise vai explodir de qualquer forma pois estas ações estão incompletas - pois não abordam todos os desdobramentos das questões do espaço e dos recursos e não tentam dar conta dos excessos que já se concretizaram, e que, dessa forma, só tendem a aumentar. A questão habitacional já está fracassada – com as cidades mal planejadas, se institui a formação de moradias irregulares nas periferias, que só tendem a crescer em número, extensão e população, configurando espaços nos quais não são garantidos todos os direitos constitucionais que são dever dos Estados Nacionais, condenando um número crescente de pessoas a restrições habitacionais, de serviços, recursos naturais e riquezas. A pobreza que se agrava em várias regiões do mundo aliada à precarização dos recursos naturais faz com que as ondas de imigração para países centrais aumentem, intensificando a tensão nas relações econômicas e trabalhistas e fazendo surgir mais bolsões de pobreza, discriminação, xenofobia, violações de direitos humanos, violência urbana e políticas repressivas.

A degradação ambiental intensifica a pobreza, o estresse e os conflitos e provoca ameaças à segurança de pessoas ou populações, forçando estas populações a se tornarem refugiados ambientais, que emigram em massa de suas localidades de origem, com recursos precários e muita preocupação, para locais mais afluentes, o que provoca mais tensão nos espaços urbanos, nos quais as populações locais tentam preservar seu próprio espaço. Nesta crise atravessam-se muitos conflitos em função da valorização econômica do espaço habitável ou aproveitável, tornando os espaços não só menos disponíveis, mas também mais caros, gerando uma certa hostilidade ou falta de confiança com o outro que vem de fora ou quer um canto seu também.

Esta crise não é produto meramente de inexoráveis forças econômicas, que pressionam o mundo cada vez mais para um estado de ebulição, mas também de uma cultura que tem a imaculada e possuída propriedade privada como um valor central, que leva então a todo esse frenesi econômico por conquistar seu próprio espaço, para sempre seu. Contra esse valor central, eu quero propor um outro valor central – o da hospitalidade. A hospitalidade se apresenta como uma subversão na medida que ela legitima os espaços que existem, aceita os habitantes desses espaços, e ao mesmo tempo acolhe aqueles que também querem usar e transitar por esse espaço. Ela transcende a dicotomia da propriedade privada e da expropriação da propriedade para a coletividade, abolindo qualquer clima de ameaça que possa surgir à soberania de cada indivíduo e satisfazendo aos interesses de todos. Como resposta e resistência à crise, queremos propor uma política da hospitalidade - que pauta a hospitalidade como valor central de uma práxis política, tanto a nível individual, comportamental e existencial, como também em termos de legislação, relações internacionais, cultura e mídia, gestão ambiental e urbanismo.

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