domingo, 28 de agosto de 2011

Epistemologia da objetificação

A noção de que o conhecimento científico não é neutro foi uma das mais radicais mudanças de mentalidade do século XX. Foram denunciados os interesses econômicos que direcionavam pesquisas e resultados, as ferramentas de interpretação, o delineamento do problema, o uso da linguagem científica para respaldar preconceitos e até mesmo os vieses de seleção da revisão por pares. Com isso descobrimos que existe muito de político e ideológico nas pesquisas sobre natureza humana, homossexualidade, raça e inteligência, sexo e gênero, produção energética, efeitos de medicamentos, causas da criminalidade, financiamento em saúde, nutrição, comparação entre diferentes modos de produção, revolução verde e até sobre aquecimento global. Descobrimos que escolhemos métodos de investigação enviesados para alcançar um resultado esperado.

Mas isto não significa que não é possível conhecer. Nem que todo conhecimento é uma mistificação da realidade. Isto significa que devemos ficar atentos a para que serve nosso conhecimento. Quando decidimos estudar os fenômenos sociais sob uma ótica pacifista, retratamos os fenômenos a ser estudados de outra forma, observando com outros procedimentos e alcançando outros resultados do que se fosse sob uma ótica mais conflitiva. Existe uma filosofia que guia a construção do problema a ser investigado. Nas últimas décadas, conquistamos uma mudança de mentalidade no Brasil com o Estatuto da Criança e do Adolescente, desconstruindo a noção de 'menor' e optando pela noção universal de 'criança e adolescente', enfrentando o discurso criminalizador da infância e da pobreza e afirmando estes como sujeitos de direitos. Vimos o emprego de diversos termos para retratar o conflito com a lei: criminalidade, delinqüência juvenil, infração juvenil, juventude em conflito com a lei, lei em conflito com o jovem - e cada uma desas noções, embora a falar sobre um mesmo fenômeno, produzem implicações políticas e epistemológicas diferentes, pois possuem pressupostos diferentes.

E é sobre a forma como retratamos o fenômenos sociais a ser investigado que devemos construir uma metodologia. Precisamos de um consistente estudo das formas de construção do fenômeno social. O pensamento científico tem avançado a passos largos no desenvolvimento de metodologias empíricas, de teste de hipóteses - mas a metodologia de como se retrata o fenômeno não tem avançado tanto. Especialmente quando o fenômeno social estudado não é 'o que', mas 'quem'. A ciência tem tido dificuldades ao lidar com sujeitos de pesquisa, em vez de objetos. Isso porque, tradicionalmente, a investigação científica tem se pautado na construção da noção de objeto a ser estudado - o que não é um problema enquanto nos limitamos a estudar rochas e sementes, mas é um problema quando lidamos com sujeitos. Porque sujeitos não podem ser controlados, nem manipulados, nem usados, nem descartados e ainda é uma questão delicada sobre o que se fala sobre os sujeitos.

Nos últimos cinqüenta anos vimos uma crescente preocupação com isso. O Código de Nuremberg, como resposta às atrocidades nazistas, prevê que os sujeitos devem ser respeitados em sua dignidade e não devem ser maltratados e manipulados ao participar de estudos científicos. Entretanto, o Código de Nuremberg só fala da objetificação durante o estudo. Pouco tem se falado sobre os processos de objetificação que acontecem antes e depois do estudo, na forma como se fala sobre os fenômenos sociais. As teorias de base marxista sobre conhecimentos populares e práticas libertárias e o estudo de análise do discurso do pós-modernismo trazem importantes contribuições para as reflexões sobre para quem serve o conhecimento. A antropologia tem suas raízes em uma abordagem racista e colonialista, e o estudo dos costumes de povos indígenas servia à colonização - e até hoje a antropologia tem sérias dificuldades em estudar outras comunidadesa de uma forma não-colonizadora, não-exploratória, sem cair na separação entre 'nós' e 'eles' e sem retratar os sujeitos como objetos estudados.

Uma epistemologia da objetificação deve estudar como se constroem os discursos que retratam sujeitos como objetos e que respaldam práticas de objetificação dos sujeitos. Isso quer dizer pensar sobre como se olha para o fenômeno - sujeitos e grupos -, como se fala, para quem fala, quem compõem a fala e quem utilizará a fala. Porque pode ser que o pesquisador cumpra com as prescrições do comitê de ética, utilize o termo de cosentimento livre e esclarecido e busque produzir um conhecimento útil que contribua para o bem-estar daquele população - mas, ao retratar tal população como objeto de intervenção, acabe fomentando processos de objetificação.

Para isso, são necessários alguns cuidados. O linguista Ferdinand de Saussure afirmou que toda escolha de palavras é ideológica. Assim, a forma como nomeamos um problema de pesquisa também é. "As causas do comportamento criminoso juvenil" é diferente de "causas da infração juvenil" ou "fatores de risco para a infração juvenil" ou "causas dos processos de criminalização juvenil". Ao delinear a questão a ser estudada, devemos ter em mente quem são os sujeitos colaboradores do estudo, como são retratados e como eles vão utilizar o conhecimento produzido. E cuidar para não transformar os sujeitos em objetos, nem em problema. E que, ao estudar um problema, escolher estudar um objeto, não pessoas. E se perguntar quem irá não só se beneficiar mas usar aquele conhecimento, ali, na hora, útil e inteligível. O sujeito deve ter voz em todas as etapas do estudo: na produção de questões e hipóteses, na escolha do método, nas conclusões, na escrita, na divulgação e na utilização do conhecimento produzido.

Por fim, uma epistemologia da objetificação deve também ser capaz de apontar os caminhso para a não-reificação dos sujeitos. Deve apontar como sujeitos conhecem sujeitos, e não como uma comunidade científica conehce objetos. E sujeitos se conehcem pela troca, pela interação e pelo diálogo. Deste modo, uma epistmeologia da objetificação deve apontar para uma epistemologia do encontro e do diálogo.

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