Ironicamente, pacifistas costumam ser vistos como uma ameaça. São rotulados como covardes, entreguistas, traidores da nação. São acusados de abrir as portas para o inimigo. Tudo isto por se recusar a pegar em armas e tratar alguém como 'o inimigo', e por propor uma cultura de paz e outra forma de resolver conflitos.
São acusados de covardia. São classificados como sabotadores, que aumentam a insegurança do coletivo e impõe uma cultura de medo e submissão. E, muitas vezes, são perseguidos e agredidos por isso. Por causa do medo que os outros sentem. Por causa do medo que alimenta uma mentalidade bélica, de quem se sente ameaçado e procura revidar, e que desconfia de todos que não odeiam o inimigo, separando o mundo entre "nós" e "eles".
Mas os pacifistas não têm medo. Pelo contrário, pacifistas são os que abandonam esse medo do outro. Que rejeitam essa mentalidade bélica e paranóica. Que procuram entender o mundo de uma forma mais profunda, transcendendo a dicotomia simplista de "nós x eles", e buscando compreender a multiplicidade de pontos de vista, sentimentos e necessidades que atravessam um conflito. E propõe outras formas de resolução de conflitos e de organização da comunidade que não sejam pautadas em uma lógica bélica.
Pacifistas também são acusados de ditar o processo, de desarmar o povo que deve resistir, de descartar estratégias de resistência importantes, de só prescrever estratégias inúteis para o confronto e de, em última instância, entregar o grupo à dominação. Basicamente, o discurso pacifista é acusado de ser um instrumento de dominação de populações oprimidas, travestido de instrumento de libertação. Podemos encontrar essas críticas sistematizadas de uma forma muito rica em Como a Não-Violência Protege o Estado, de Peter Gelderloos, que, embora rotule de forma estereotipada como pacifismo e não-violência, denuncia de forma inteligente os riscos de cooptação de um discurso "da paz" pela manutenção de violências estruturais.
Gelderloos erra ao classificar o pacifismo como um instrumento de dominação e colonização em essência. Colonialismo não é pacifismo. O colonialismo é bélico, mistificador, separa as pessoas entre colonizadores e colonizados. E se apresenta como um processo civilizatório, pacificador, salvador. O discurso da paz já chegou a ser cooptado até mesmo pelo discurso militarista, em práticas que vão desde a "Paz Armada" às "Unidades de Polícia Pacificadora".
O pacifista rejeita essa pacificação pela força, como rejeita qualquer militarismo. O pacifista rejeita ser sustentado e protegido pela lógica militarista. Rejeita então também o Estado, por ser fundamentado no monopólio da força pelas organizações militares, e rejeita a criminalização. No lugar, propõe outra forma de conhecer e de se relacionar.
Mas o pacifista também corre o risco de se sustentar em um monopólio do saber, e contribuir para um processo de colonização sobre outros grupos não afinados ao mesmo discurso. Por isso, o pacifista deve também negar qualquer posição de autoridade. Devemos afirmar o pacifismo como uma escolha, não como uma ordem. O pacifismo deve ser existencialista, não colonizador.
A crítica de Gelderloos pode ser sintetizada na seguinte frase:
"A não violência afirma que os índios americanos poderiam ter lutado contra Colombo, George Washington, e todos os demais carniceiros genocídas através de bloqueios sentados; que Crazy Horse, empregando a resistência violenta, tornou-se parte do ciclo da violência e foi “tão mau quanto” Custe"
Mas isso numa lógica colonizadora, moralizante e criminalizante. E centrada no confronto. Ou seja, numa lógica bélica.
Acontece que o pacifismo não condena a violência - o pacifismo rejeita a violência. Trata-se de uma escolha existencial sobre como lidar com o conflito, e não em ditar como outros devem se comportar - pois isso seria reproduzir a lógica autoritária e criminalizanete que o pacifismo rejeita. A postura pacifista consiste em buscar conhecer, buscar soluções e construir novas relações sociais, e não em impor como as pessoas devem resolver seus conflitos. Isto criaria uma nova forma de dominação, e um novo conflito. Que é o que um Estado criminalizador e repressor faz - e em nome da paz, da tranqüilidade, da segurança e da ordem.
Em vez de aliado da ordem do Estado, o pacifismo inspira a desobediência civil. Em vez do silenciamento, o uso da voz. Em vez de moralizar, compreender. Em vez de condenar, restaurar.
Os críticos acusam a não-violência de ser inútil em situações de confronto, como no exemplo dos sit-in frente ao exército genocida. Mas acontece que o pacifismo não prescreve formas de se comportar no ápice do confronto - o pacifismo propõe modos não-bélicos de sociabilidade. Existe um certo fetiche quanto ao momento do confronto, dos segundos cruciais de resistência, o clímax, o ápice da luta, e se ignora que as pessoas existem num antes e num depois do confronto. Existe um entendimento de que pacifsimo é uma forma de protesto. Mas o pacifismo não é protesto, não se centra no protesto. Embora existam inúmeras formas de resistência não violenta e procedimentos especializados de resolução não-violenta de conflitos, o pacifismo não se foca no ápice do confronto. Este é o foco da mentalidade bélica, para a qual um grupo sai vencedor e outro vencido. O pacifismo propõe um olhar mais amplo sobre os processos de opressão, dominação e conflito, e olha tanto para o pré-confronto, e como prevenir o confronto, e sobre o que fazer depois. E para os momentos antes e depois do confronto, o pacifismo tem decididamente soluções melhores do que as que envolvem violência.
Os pacifistas não condenam os índios americanos que guerrearam contra os colonizadores. Nem defendem que eles deveriam ter feito um protesto se amarrando nas árvores. Mas os pacifistas questionam sim todo o processo de preparação dos colonizadores para operar esse massacre. E procuram pensar de que forma o massacre poderia ter sido impedido - quem teria que ser acionado, que discurso teria que ser questionado, quem ações poderiam ter sido tomadas e o que poderia ser feito para evitar outros genocídios. E tudo isto envolve muita dúvida, muita reflexão, muito estudo e muito exercício de se colocar no lugar do outro.
A certeza que temos é que, sem dúvida, um protesto não ajudaria os índios americanos a evitar o genocídio. Da mesma forma que a insurgência não ajudou.
Se nem todos os argumentos de Gelderloos se salvam, a sua defesa de uma militância que utiliza uma diversidade de táticas no confronto com o Estado continua firme. No último capítulo do seu livro, intitulado "Alternativas", ele elenca uma série de atitudes que poderiam ser tomadas na criação de uma sociedade libertária - e faz questão de apontar que nenhuma dessas atitudes é militarista ou violenta. Entre essas atitudes, encontra-se a prevenção de uma situação de vingança contra aqueles que lutaram contra a Revolução, pois isto criaria uma nova situação de opressão, e quase toda a luta teria sido em vão.
ResponderExcluirO fetiche pelo confronto é bastante compreensível, por que são nos momentos de choque com o Estado que o futuro de muitos movimentos é definido. Em seu livro, Gelderloos cita exemplos históricos como evidência de que movimentos de contestação que revidaram o ataque estatal duraram muito mais tempo do que aqueles que utilizaram a "resistência passiva", e exerceram mais influência nos meios libertários do que estes. Não podemos tratar o Estado como uma pessoa que merece respeito, por que ele é uma força impessoal que esmaga todos que vão contra seus interesses. Entretanto, também não podemos tratar as pessoas que trabalham para o Estado como sendo o Estado em si - mesmo os funcionários mais privilegiados, como o presidente da república.
Precisamos de uma diversidade de táticas, para uma diversidade de situações. Uma flor pendurada em uma metralhadora não a impede de disparar contra manifestantes, e é pouco reconfortante pensar nos efeitos de seu gesto simbólico enquanto a polícia baixa o cacete e mete bala em todo mundo, para não dizer delirante. O conflito existe, e precisa ser enfrentado.
Por outro lado, o pacifismo também é uma tática, mas não para o conflito. Acredito que o fato de estarmos tentando usar a não-violência para todo e qualquer tipo de situação demonstra que ainda não a entendemos muito bem. Como o Bruno mesmo falou, existimos antes e depois do confronto, e não é o tempo todo que somos obrigados a lidar com a violência estrutural do Estado. Será que a mesma lógica que eu utilizo num embate com policiais é válida para meus relacionamentos pessoais? Devo ou posso considerar meus amigos, amores, parentes e pais como inerentemente opressores? Penso que não.
O pacifismo de Tolstoi e Gandhi não devem ser reificados como a panaceia, mas também não podem ser desprezados. O fato dele exercer tanto fascínio sobre nós me faz acreditar que ele aponta para uma dimensão ainda não explorada de nossa natureza, que precisa ser estimulada e treinada. Enquanto não conseguimos isso, ficamos na dialética entre violência e não violência.