segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O muro de Berlim e os novos autoritarismos



A queda do muro de Berlim matou o fantasma dos governos totalitários que assombrava e ameaçava o mundo todo. Acabou com aquela experiência cotidiana generalizada de viver cercado, preso dentro de muros, vigiado pelo exército, que marcou povos inteiros. Para muitos, a queda do muro de Berlim significou o fim das tiranias. Para outros, significou a entrada no neoliberalismo selvagem e na Nova Ordem Mundial, e com ela o fim das utopias. A Nova Ordem Mundial matou sonhos, liquidou a imaginação, despolitizou a vida, e fez com que sobreviver e buscar um lugar ao sol dentro do capitalismo fosse a única alternativa possível.

Apesar da euforia, a queda do muro de Berlim trouxe apatia. Povos inteiros desgastados pelo totalitarismo e depois novamente desgastados pelo neoliberalismo e pelo desemprego. E na busca individual pela inserção no mercado, indiferentes aos outros. Como a violência da economia é muito mais vaga e difícil de identificar que a violência dos governos totalitários, o autoritarismo deixou de ser uma experiência cotidiana do cidadão-comum.

Os autoritarismos mudaram de forma. De autoritarismos totalitários que afetam a todos passaram ser autoritarismos fragmentados que afetam minorias. Hoje os autoritarismos caem sobre o lumpesinato, as comunidades invisibilisadas, os anônimos e os desfiliados.

É sobre as minorias, os excluídos sociais, que recaem os novos autoritarismos e os novos muros. Em vez de separar entre os inseridos nos mundos capitalista ou comunista, os muros de hoje separam entre os inseridos no mercado e os excluídos. E para os excluídos são destinadas novas cortinas-de-ferro: prisões, comunidades terapêuticas, campos de refugiados. Os muros de Berlim de hoje são os depósitos de indesejáveis. Os novos autoritarismos estão alinhados aos projetos de expansão das prisões, de recolhimento forçado de moradores de rua, de segregação e construção de muros sobre favelas, de medidas higiniestas, de remoções forçadas de comunidades inteiras e de fronteiras que impedem a passagem de imigrantes. O que interessa hoje é o governo autoritário dos mais fracos, enquanto se asseguram as benesses dos privilegiados.

A crueldade desses novos autoritarismos está em produzir apatia: por não afetar a todos, não faz questão a todos - apenas aos próprios excluídos. E o desafio está em delinear uma estratégia para derrubar esses autoritarismos. Aqueles que vivem cotidianamente esses autoritarismos enfrentantam sérias dificuldades para se organizar politicamente. Os novos autoritarismos escolheram meticulosamente suas vítimas: os desfiliados, os impotentes, os que, pela força da lei, perderam o estatuto de cidadãos. E aqueles que em outros tempos fariam grandes movimentos de massa contra governos totalitários hoje são classes beneficiadas dos fluxos do mercado e se vêem muito distantes dessa realidade de opressão. O autoritarismo hoje é altamente seletivo, e boa parte da população se beneficia dele e de suas práticas de higienismo social. Pensar o enfrentamento dos autoritarismos hoje não tem mais a ver com a defesa dos próprios direitos formais dentro da máquina, mas com rejeitar os efeitos da máquina. O enfrentamento dos autoritarismos hoje se dá, para os oprimidos, como luta pela sobrevivência, e para os em posição de privilégio, como recusa em colaborar com o autoritarismo.

Mas é necessário ir além. O neoliberalismo afastou as pessoas. Tornou nossos laços mais frágeis, mais do que qualquer muro teria conseguido. É necessário aproximar as pessoas. Ficar lado a lado. Fortalecer laços. Mostrar, uns aos outros, que não estamos sozinhos. E que não vamos aceitar nenhum muro entre as pessoas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário