terça-feira, 21 de agosto de 2012
Por uma Geografia da Imaginação
Pensar a liberdade é se pensar no espaço. É pensar em como e onde se move no espaço sobre a liberdade de movimento, e sobre onde não se pode ir. O território não é simplesmente uma faixa de terra - o território é também percurso, história, cultura, encontro e afeto. Pensar a liberdade, portanto, exige pensar em como nos movimentamos e como podemos nos movimentar pelos territórios afetivos, existenciais, históricos, culturais - ou espaciais.
Uma das mais naturalizadas imposições pelo Estado-Nação é sobre sua organização simbólica e suas fronteiras. A delimitação das fronteiras é usualmente entendida como legítima, natural, óbvia, necessária e boa - apesar de ser motivo para guerras, devastação ambiental, políticas anti-imigração e mercantilização do espaço natural.
Existe um antigo sonho libertário de eliminação das fronteiras - que, infelizmente, é pouco levado a sério e até esquecido. A abolição das fronteiras é considerada uma utopia ingênua. Bom, certamente é utópica - utópica por que pensa um mundo muito diferente. Pode ser considerada ingênua por faltar tática e estratégia. O estabelecimento das fronteiras dos Estados-Nação foi parte de um projeto de poder tão bem-sucedido que hoje não sofre nenhum questionamento. O máximo de contestação das fronteiras é graças aos povos que lutam por um separatismo estatal ou que há pouco lutaram pela independência nacional - mas que não conseguem sair da lógica do estabelecimento de fronteiras e de um Estado, e conseguem no máximo querer fronteiras diferentes.
É preciso ir além. Não se trata de expandir ou diminuir uma fronteira. Não se trata de dispor de grandes equipamentos militares para sustentar uma determinada perspectiva. É preciso desobedecer à geografia imposta pelo Estado e rejeitar a Paz de Westfalia.
Pegue o mapa da Terra. Pegue o mapa da Terra sem os países - só com os biomas. Observe. Imagine como é possível redesenhar esse mapa. Imagine como as comunidades estão organizadas e onde estão localizadas. Imagine as comunidades autônomas que têm contato umas com as outras. Imagine os fluxos. Imagine os caminhos percorridos para se chegar a uma cachoeira. Pense um mapa que não siga a lógica das cercas, dos muros, das estradas, das cidades, das burocracias. Pense um mapa que não seja escrito pelo colonizador. Pense em outros desenhos, cores e nomes nesse mapa. Pense um mapa que evidencia culturas que buscam emancipação, que são invisibilizadas pelas grandes fronteiras nacionais e seus espaços planificados.
Precisamos desenhar nossos próprios territórios. Criar um poder dual. Geografias paralelas, secretas, clandestinas. Registrar as Zonas Autônomas Temporárias, Sazonais ou Permanentes nos mapas. Devemos para de aceitar a versão do colonizador, e estabelecer nossas próprias geografias. A abolição das fronteiras é uma utopia - que se faz no agora.
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