
A noção de resistência não-violenta precisa ser abandonada. Ela já vem recebendo duras críticas de círculos libertários por não possibilitar uma real resistência e por ser retratada como antagônica à autodefesa. Em Como a Não-violência Protege o Estado - que tem se tornado uma grande referência teórica nos meios libertários - , o autor acusa a ‘resistência não-violenta’ de ser um empecilho, de ser imprática, ineficaz e acabar por exigir submissão, derrota e autossacrifício. E, para uma lógica pacifista, não faz sentido falar em ‘resistência não-violenta’.
Primeiro, porque a noção de ‘resistência não-violenta’ tem sido pintada como uma caricatura ou boneco de palha que ridiculariza e malrepresenta posturas pacifistas. Além de uma caricatura, o que o termo ‘resistência não-violenta’ parece estar querendo indicar é a ‘não-resistência’ que é uma postura de vida prescrita por Leon Tolstoi, baseada no valor cristão de oferecer a outra face quando atacado. A não-resistência tem um caráter mais existencial e teológico, e não deve ser entendida como uma tática de luta social - pois, de fato, ela não se propõe a ser prática.
A caricaturização da ‘resistência não-violenta’ pode ser vista em Como a Não-violência Protege o Estado: “A não violência afirma que os índios americanos poderiam ter lutado contra Colombo, George Washington, e todos os demais carniceiros genocidas através de bloqueios sentados; que Crazy Horse, empregando a resistência violenta, tornou-se parte do ciclo da violência e foi “tão mau quanto” Custe”. O autor acusa a ‘resistência não-violenta’ de ser autoritária, proibitiva e moralizante e simplesmente cobrar a atitude moral do oprimido. De prescrever como única ação legítima a não-resistência à agressão.
Mas quando se fala tanto em ‘resistência não-violenta’ quanto em ‘não-resistência à agressão’, perde-se o framework pacifista. Primeiro, porque quando se fala em ‘resistência’, é resistência a um ataque. A um ataque direto perpetrado por uma força muito maior que pretende obliterar os resistentes. E que remete a um contexto político militarizado, de dois grupos antagônicos, com desigual uso da força, ausência de aliados do lado dos resistentes, impossibilidade de diálogo e impossibilidade de mudança nas dinâmicas políticas - com exceção da vitória militar de um dos grupos. No contexto da resistência, o que está em jogo é a autoproteção. O que importa é resistir ao poder maior. Por isso, não faz sentido em falar em ‘resistência não-violenta’.
Em um caso de agressão sexual que a pessoa atacada reage com golpes, se chama resistência. Ninguém chamaria a autodefesa dela de violência. Se, em vez disso, ela simplesmente escapa, continua sendo resistência - não é por não ter lutado que seria ‘resistência não-violenta’. E o que se imagina como ‘resistência não-violenta’ nessa situação é algo simplesmente absurdo e vitimizante. E o que se configuraria como violência seria transformar a agressão ao agressor em política, e, fora do contexto do ataque, formar grupos para caçar, espancar e punir homens culpados de violência sexual. A lógica da resistência e a lógica do pacifismo operam em contextos distintos. O pacifismo vai se dedicar a prevenir as violências, a desconstruir lógicas opressivas, a mudar mentalidades. Nessa situação, o pacifismo significa oferecer maior segurança pública às mulheres e também garantir uma abordagem humanizadora, não-vingativa, antipenalista e transformadora para lidar com homens culpados de violência sexual, e prevenir a ação de políticas violentas. Já a lógica da resistência significa, em frente ao ataque, resistir - de qualquer forma possível. Pacifismo e resistência não são antagônicos, mas operam em momentos distintos.
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